segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Hierarquia


A antropologia de Pierre Clastres descreve tipos de sociedades “contra o Estado”. Não que essas sociedades sejam contra o Estado, mas porque elas estão de tal forma organizadas que não permitem a permanência de um déspota pelo tempo que seria necessário à formação de um Estado. O sistema de liderança é móvel e horizontal, não há tempo para a cristalização de hierarquias no seio da sociedade. Daí, serem reconhecidas como “Sociedades Contra o Estado”. E nem adianta alegar que tais sociedades se encontrariam em um estado primitivo da evolução, elas são assim mesmo, sem Estado. De uma certa forma, imitam a vida.
Quando pensamos na vida, não encontramos nenhuma forma de hierarquia que a sustente. Não há valores na vida que sobreponham uma ordem de baixo para cima, valores maiores e menores. A vida é um conjunto ilimitado, sem fronteiras interiores ou exteriores. Não há maior nem menor na vida. Por isso, a vida não se remete a um objeto nem deriva de um sujeito. Não há em cima nem embaixo da vida, ela se encontra por toda parte. Não há quem manda nem quem obedece, há apenas leis da vida funcionando em todo organismo vivente, autopoiese. Tais leis outorgam aos entes autonomia e liberdade dentro do âmbito das vicissitudes da própria vida. Não há Bem nem Mal, apenas bom e ruim. Não há castigo nem prêmio, mas tão-somente consequências dos encontros, bons ou ruins. Segundo Espinosa, o bom encontro é aquele que aumenta em felicidade e potência um corpo; o encontro ruim é o que diminui a potência e preenche o corpo de tristeza. Também isso não é hierarquia, apenas relação de forças. Nisso, pelo menos, aquelas sociedades, ditas primitivas, imitam a vida.

domingo, 29 de novembro de 2009

Sabiá


Foto Gladys Branco

Estamos findando a primavera e com ela se despede também o canto dos sabiás que vão encerrando mais um ciclo de reprodução. Eles fazem um ritornelo, que é um canto de sedução e marcação de território, uma política de coexistência na natureza. Os sabiás parecem ser especialistas nessa espécie de cântico. Cantam numa época específica e em uma região específica das montanhas. Um espetáculo sonoro para os ouvidos humanos, mas para eles, uma questão de sobrevivência.
“O mundo é sonoro, é ótico”,diz o filósofo Gilles Deleuze. E quando já não escutamos o mundo, é porque o perdemos. Perdemos completamente o mundo. Só os especialistas entendem os sons e as imagens do mundo. O mundo passa despercebido diante dos sentidos da maioria dos humanos. Tamanha tragédia tem a sua origem na formação da consciência, ou seja, “ter consciência” é, ao mesmo tempo, “perder a consciência” de um resto incomensurável. Nossos sentidos se condicionam pela busca das finalidades, queremos o mundo para as nossas finalidades narcísicas. Por isso, engaiolamos os pássaros para que cantem privativamente para nós. Que idéia imbecil essa de privatizar a sonoridade dos pássaros! Achamos que o sabiá e, os demais pássaros, cantam para nossos ouvidos.
Ainda assim, sob esse narcisismo, pouco ou quase nada sabemos ou ouvimos da natureza sonora dos pássaros. Eles não cantam para nossos ouvidos, são absolutamente indiferentes aos nossos sentimentos, eles cantam para que a vida seja possível de continuar.
Há um sentido religioso no clamor de um mundo que se perdeu, não é com o além-mundo que o homem quebrou o seu vínculo, o homem se desligou do mundo sonoro e ótico. Por isso, o apelo à fé: cristão, ateus, judeus e crentes de qualquer ordem, precisamos de uma fé no mundo de tal maneira que possanos re-ligar à Terra. Terra que dá a semente, que alimenta todas as formas de vida. Os sabiás cantam a esse vínculo de fidelidade. Não só eles, mas toda a multiplicidade sonora tem esse sentido de afirmação à vida.

sábado, 14 de novembro de 2009

Água


Foto Gladys Branco

Qual é a imagem da água? Da água que cai das nuvens em forma de chuva, da que escorre subterrânea, da que se arrasta nos rios, das águas da fonte, dos lagos dourados ou cristalinos? Não há propriamente a imagem da água em nenhum desses casos, a imagem é criada pelos contornos, das margens que o olhar humano capta.
Enquanto força sem imagem, a água, o espelho d’água, o toque da água, o frescor - tudo isso nos arrasta para sensações indefinidas - só que não pensamos nisso. As crianças lidam maravilhosamente com as poças d’água que recobrem a grama logo após as fortes chuvas de verão. Quem não se lembra de uma cena como essa: a grama fina e verde suavemente recoberta pela água limpa da chuva. As águas de um pequeno lago que deságua na areia ou na grama são cenas que precipitam em nós as mais sublimes sensações.
Todas as imagens que estou descrevendo vem das bordas: a grama verde e a suavidade da fina camada de água. O que isso causa na percepção e nos sentidos? São puras sensações não humanas da natureza. Não são percepções ainda, são “visões” não humanas da natureza que preenchem o corpo com afecções puras. Esse encontro do corpo humano com esse corpo indefinido, água, dá-nos uma prova da força da natureza em nós. Os indefinidos são sensações que não sabemos descrever, apenas dizemos coisas do tipo: é bom... sinto uma alegria... sinto um medo... uma insegurança... uma desorientação... Mas não sabemos dizer os porquês. A criança de colo, principalmente, vive mergulhada nos indefinidos. Por isso, elas lidam tão bem com a água. As crianças e os animais vivem por afectos, já os adultos não, eles ficam demasiadamente chateados com a chuva e com as poças d’água. As crianças, diferentemente dos adultos, não se prendem tanto às definições como aos afectos que lhes afectam. Então, reduzimos tudo a uma imagem e paramos todo o processo da natureza em nós.
Enquanto definições, as imagens tendem a encerrar um processo. Mas existem as imagens que têm a finalidade de iniciar processos indefinidos, elas são as imagens que se dissipam, se pulverizam no espaço e no tempo, são as mais interessantes.
Estamos ficando cada vez mais humanos, por isso, paradoxalmente sentindo cada vez menos a natureza em nós.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ratos


Foto Gladys Branco

Por uma questão de sobrevivência, os ratos são especialistas em fugas. É da natureza desses pequenos animais fugir de todos, de gatos, de cachorros, dos humanos, das aves de rapina e, inclusive, de seus semelhantes. Ninguém é confiável quando se trata de ratos. Por isso, eles desenvolveram os sentidos ao extremo.
A exterminação desses roedores é impossível dada a sua competência em criar linhas de fuga eficazes. As tocas dos ratos são de uma engenharia supreendente. Os arquitetos têm muito a aprender com as construções subterrâneas dos ratos. Talvez a força de uma rato possa ser medida a partir de sua capacidade em lidar com o indefinido. As condições de vida de um rato faz dele mesmo um centro de possibilidades. Uma vida cercada de impossíveis, torna o impossível um caminho de “condições de possibilidades”.
Os ratos vivem o tempo todo no limite do que podem. As condições em que se encontram lançados, em um mundo de indefinições e incertezas, fazem com que experimentem alternativas e saídas inusitadas. Eles são temíveis pela sua força e capacidade de sobrevivência. O único acordo com o mundo exterior se encontra nos laboratórios de pesquisa, mesmo ali, é uma espécie branca que serve de cobaia. Fora isso, não há acordo com ratos e o mundo exterior.
Os ratos são odiados por todos os lados, o mundo exterior e o seu próprio mundo são inimigos virtuais que se atualizam inesperadamente. Os ratos não têm lar, eles vivem de passagens, são eternos estrangeiros. Não há relação de dentro e fora para eles, mesmo quando dentro, se sentem expostos, eles são out siders. Com uma cidadania negada, ratos se vêem em um eterno des-território. Qualquer ataque aos ratos, mesmo em uma ninhada de filhotes, tem a legitimação moral da sociedade que o detesta e deseja livrar-se deles. São moralmente neutralizados, não têm ninguém por eles. Entretanto, os ratos nos deixam uma lição: como pode um animalzinho esquecido por Deus e odiado pelos homens de toda aTerra, manter-se numerosamente em crescimento? Ter sobrevido às secas, dilúvios e guerras de toda espécie? Os ratos são modelo de resistência, muito superiores a todos os animais que se encontram em extinção. Há essa lição a aprender com eles, uma política de resitência. A velocidade nos ataques e nas fugas, o silêncio das espreitas, as trincheiras subterrâneas de múltiplas entradas e saídas, as camuflagens... são modelos de resistência das melhores guerrilhas. Eles são uma forma de vida que, como todas as demais, querem expandir, crescer e subir. Assim como os homens.

sábado, 24 de outubro de 2009

Pai


Foto Gladys Branco

A imagem do pai do século XIX evaparou-se no século XX. Aquele Pai da subjetividade masculina que dava o nome, a fala e o falo aos seus filhos anda vacilante em sua crise de identidade. Não é o fim da família ainda, ela apenas se encontra em desordem, agonizando para se reinventar. Já não cabe mais na realidade social a família típica do modo cristã-judaica e idealista cujo patriarca funcionou como eixo central de produção de subjetividade e sentidos. São famílias reconstituídas, monoparentais, homoparentais e das formas possíveis de rearranjos: famílias de rua, de abrigos, pulveridas de capitalismo e remanescentes de áreas de guerra.
Onde está o pai? Nunca o vimos tão diminuto e inexpressivo, o pai está morto? Kafka, ao ampliar o retrato do pai na extensão do mapa mundi (Carta ao pai), mostra que a função do nome do pai é exercida hoje pelas instituições de poder. Trata-se da autoridade de um pai que foi deslocado para as instâncias burocráticas de poder. O segredo da autoridade do pai se encontra trancafiado por trás das portas das instituições sociais. Hoje, a punição é exercida pela polícia, pelos tribunais, pelas igrejas, pelas escolas e pelas formas de trabalho. Cada espaço social tem a sua função de segmentarizar o homem. Cada lugar, casa, igreja, fábrica... tem seus regulamentos de controle.
Os espaços sociais “dizem” o como se comportar e são cada vez mais vigiados. A utilidade do pai se resumiu à entrada dos filhos no mundo e à manutenção da casa.
Os pais são apenas meios para que os filhos alcancem os seus fins. Não queremos dizer que assim seja melhor ou pior, apenas é. Os pais são a entrada dos filhos no mundo; mas, as saídas podem ser múltiplas e cabe aos filhos criar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vida


Foto Gladys Branco

O que é vida? Ou o que é a Vida? Logo nos vem à consciência a vida dos indivíduos, das pessoas; em segundo lugar, quando pensamos, vem a idéia da vida dos animais, das plantas, etc. Mas existe o incomensurável plano da vida pré-individual no qual raramente pensamos.
A realidade pura da vida se encontra antes, através e após os indivíduos vivos. Seja uma formiga, um organismo unicelular, um elefante, um vírus, uma bactéria ou um homem. Nem pensamos o fato de que a vida sempre existiu. A vida é eterna, portanto, há um equívoco na espera da eternidade, ela já é desde sempre. Estamos inexoravelmente mergulhados nela, na vida que só pode ser eterna. O que morre é um indivíduo, a vida jamais morre.
A filosofia definiu a vida de uma forma extraordinária, “a vida é pré-individual, pré-subjetiva, ontológica, imanência pura...” (GILLES DELEUZE). Dizendo de outra forma, a vida é antes da formação de qualquer ente, ela pré-existe a qualquer formação de subjetividade (mente, pensamento, percepção, valores, etc.). A vida não tem começo e não tem fim, tanto no sentido de término ou de propósito, isso porque se a vida tivesse um propósito já o teria atingido.
Não há nenhum valor para a vida, ela não é má, não é bela, não é feia, nem mesmo é boa. A vida é a vida. Não tem um começo e não termina nunca. Não se remete a um sujeito nem se dirige a um objeto. Ou seja, a vida não começa em um sujeito e se dirige para um outro qualquer. Logo, ela não existe em alguma coisa, para alguma coisa, ela não depende de nada fora dela.
Só a vida das pessoas pode vir a ser boa ou má, triste ou alegre, com ou sem sentido. Isso porque só o homem dá sentido as coisas, o homem só olha para as coisas dando sentido, dando valores (bem e mal). É por isso que a filosofia (Nietzsche) diz que a vida é “para além do bem e do mal”, a vida não tem valor. Mas a vida não tem valor transcendente, de fora dela, isso porque o valor da vida é imanente a ela mesma. Os valores que o homem dá a vida são derivados dos sentimentos que ele experimenta: quando se está triste, com dores, amargurado pelas perdas e decepções, é possível que se diga: “a vida é terrível”, “a vida é ruim”. Por outro lado, quando se está feliz, apaixonado, etc., a sentença pode ser outra do tipo: “a vida é bela”, mas não é isso nem aquilo. A vida continua indiferente aos valores que damos a ela em seu fluxo inexorável. Não importa, o que realmente importa é que sendo a vida pura, sem imagem ou forma, faz com que o homem tenha o dever ético de produzir a sua própria vida, o seu próprio sentido de viver. E mais, o homem pode reiventar o sentido sempre que a vida se encontrar aprisionada nas formas de bem e de mal.

domingo, 4 de outubro de 2009

Experimentação


Foto Gladys Branco

Não importa se concordam ou não quando se diz que a vida é experimentação. Pouco importa se os moralistas se revoltam contra a realidade de sermos todos experimentadores. A revolta dos mais sérios indivíduos é sempre contra o inexorável fato de que somos atravessados por experimentações.
Você é experimentador e pronto. É perigoso experimentar? É desde o princípio perigoso viver. Mas, ao mesmo tempo, não se dá um passo na vida sem que algum tipo de experimentação tenha que ser iniciada em qualquer nível. Experimentar é ensaio e erro. Mas há os grandes experimentadores e os pequenos. Geralmente, o mundo caminhanas mãos dos grandes.
Uma criança é um grande experimentador até o momento em que os adultos interceptam as linhas do mapa experimental das crianças. Para uma criança começar a andar é preciso fazer infinitas tentativas, muitos cálculos de equilíbrio, muitas quedas até a chegada do momento fatal em que ela se põe ereta sobre os pés.
O mundo de um indivíduo é justo do tamanho de suas experimentações. Se a vida é expansão e crescimento contínuo, os indivíduos precisam necessariamente de experimentações: isso não tem nada a ver com moral, trata-se de uma ética. Experimentar para criar caminhos alternativos para se andar no mundo. Lá onde a vida se encontra presa e oprimida, ela mesma, clama por uma sucessão de linhas infinitas de experimentação. Não teríamos o brilho das lâmpadas se um experimentador incansável tivesse desistido antes dos três mil experimentos. Não teríamos o avião, as vacinas, os remédios, as cirurgias, os tratamentos, os conhecimentos experimentais, toda aciência. Não é uma questão consciente que leva um indivíduo a decisão racional de ser um experimentador, ele é condenado à experimentação.Cabe à decisão apenas se confrontar com as qualidades da experimentação. É uma questão de aumento de potência ou de diminuição, de potencializar a saúde e a alegria ou de diminuição da mesma. De bons e de maus encontros, isso porque experimentar é uma questão de encontros e de estilo de vida.